Coluna: Clarisse e Maurício

Por 11 / 06 / 2011

Clarisse sabia que não tinha mais um dia inteiro pela frente, sabia que o breu do lado de fora do seu quarto era sinal que a noite vinha chegando. No mp3 uma antiga canção de amor que havia marcado a época de seus pais. Clarisse era mesmo old fashion, na parede do seu quarto quem figurava eram artistas das antigas, e não os novos playboysinhos que já nem parecem mais homens de verdade.

Na agenda, uma colagem com fotos de amigos e um desenho ao redor do rosto de Maurício, o menino tímido que só falava com ela. Mas não a amava. Clarisse era só paixão para com seu colega de classe, e ele nem era bonito, mas fazia o coração dela quase sair pela boca quando entrava na escola com seus óculos de aro preto e seu tênis all star propositalmente e estrategicamente destruído. Maurício era quieto, mas tinha atitude.

Clarisse era vaidosa. Na penteadeira estava uma caixa com maquiagens, uma sombra para cara cor de roupa do guarda-roupa, um brinco para casa momento, uma presilha de cada estilo; ela não saía de casa sem pelo menos um batom e um lápis azul em seus olhos negros. E Maurício nem dava bola. Ele gostava de conversar com Clarisse porque ela era a única da classe a saber quem era Marlon Brando e ficar horas entretida com filmes em preto-e-branco, e nessas longas conversas, seus olhos nunca pararam para notar a roupa que ela vestia ou a sombra que circulava seus olhos.

Clarisse sonhava em casar com Maurício, Maurício sonhava em virar um médico sem fronteiras e salvar crianças da desnutrição nas regiões mais pobres do planeta. Clarisse passava horas sonhando com o primeiro beijo enquanto Maurício estudava botânica. Clarisse tinha muitos amigos, Maurício tinha um jardim com ervas medicinais. Clarisse amava Maurício, Maurício não sabia ainda o que ou quem amar.

Um dia Clarisse desistiu. Um dia Clarisse conheceu Estevão. Foi nesse dia que Maurício percebeu que seu mundo sem Clarisse simplesmente não podia existir. Foi nesse dia que Maurício notou que Clarisse gostava de fazer trancinhas e ficava bem de vermelho; que pintava borboletas nas unhas e usava brincos dourados; que suas pulseiras faziam um barulhinho engraçado e a fivela de seu cinto refletia a luz do sol.

Um dia Maurício resolveu lutar, mas Clarisse já amava Estevão. Então um dia Clarisse percebeu que Estevão se incomodava com seus quilinhos a mais e não gostava do seu batom cor cobre; que a preferia sempre de salto mesmo que doessem seus pés e que não a achava atraente de casacos muito quentes.

Um dia Maurício roubou um beijo de Clarisse quando ela quase chorava porque Estevão não a tratava tão bem. Clarisse entendeu que também não podia mais existir um mundo sem Maurício e retribuiu o beijo. Estevão dançou.

Num outro dia qualquer Clarisse embarcou em um avião. Na mala um jaleco branco e amor no coração, ao seu lado, o doutor em botânica Maurício viajava com ela, afinal, alguém precisava ajudar as crianças dos países mais pobres do planeta, ninguém melhor que a Dra. Clarisse, que tinha na carteira uma foto de Clarinha, a pequena de 3 anos, e no dedo anelar da mão esquerda o mesmo anel que Maurício exibia com orgulho.

Um dia, um desses qualquer, Clarisse e Maurício viveram felizes para sempre.

MayaFalks

Redatora publicitária, escritora, roteirista, colunista e mulher vaidosa nas horas vagas.
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Helen Rauen

Relações Públicas, bancária e auto-maquiadora nas horas vagas. Perfeccionista, consumista, chef de sua própria cozinha e com uma pitada de artesanato na veia.

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