Complexo de Super-Herói

Por 03 / 11 / 2011

Sabe o que mais me incomoda em mim mesma? Não são as estrias, os quilos a mais, a celulite, os fios brancos que começam a chegar. Não é a necessidade de depilar boa parte do corpo, arrancar à cera metade da minha sobrancelha, descolorir o buço. Não é o retoque da raiz, o esmalte que descasca ou o desconforto do salto alto nas calçadas estragadas. O que mais me incomoda em mim mesma é achar que eu posso fazer tudo.

Toda mulher moderna tem complexo de super-herói, porque toda mulher moderna tem sonhos profissionais mas também cresceu sabendo que tem o dom de gerar a vida e, portanto, a obrigação moral de ser mãe de família. E ser mãe de família não inclui só carregar o bebê por 9 meses, parir, amamentar e criar o rebento; inclui também manter a casa em ordem, arrumada, limpa, manter a comida na mesa, as roupas lavadas e de preferência ainda manter uma boa aparência para o marido não se achar injustiçado porque você se deixou levar pela vida.

Não, mulheres, não somos há tempos o sexo frágil e homem sensato reconhece nossa força, mas também não temos mais como abraçar o mundo. É impossível ser tudo, ou pelo menos ser tudo fazendo tudo bem feito. Ninguém consegue. Precisamos de foco, precisamos de meta, precisamos de uma trilha reta porque as bifurcações não são parte do caminho; são mudanças de destino final. Não há nada de errado em pegar uma dessas bifurcações e dar a volta, mudar o rumo, mas tem que se ter a total consciência que o ponto final dessa jornada não será mais o mesmo que se pretendia no começo.

Não é raro vermos mulheres largando o trabalho para cuidar dos filhos, ou largando os filhos para cuidar do trabalho, simplesmente porque ser exemplar nos dois não é para qualquer um – afinal – ambos demandam tempo, dedicação e atenção, e essa história de que mulher consegue fazer tudo ao mesmo tempo é conversa fiada de homem que não quer assumir metade da casa ou de mulher que não quer abrir mão de nada.

Exageros à parte, é sim possível ser mãe, esposa e profissional bem sucedida ao mesmo tempo, mas eventualmente você vai perder a partida de futebol do filho ou a apresentação de balé da filha porque tinha uma reunião importante. Ou vai desmarcar uma reunião importante porque teve que buscar o filho com febre na escola. Ou vai render menos no expediente porque passou a noite em claro cuidando da varicela dos pequenos. Ou vai deixar de fiscalizar as tarefas de casa das crianças porque precisa desesperadamente dormir. E nesse meio tempo todos precisarão comer, as roupas precisarão estar limpas e passadas e a casa não pode virar um chiqueiro. Mas o mais importante – nesse meio tempo você não pode esquecer que você ainda é uma mulher.

Você vai precisar de um banho demorado, vai precisar de sexo e romance, vai precisar ir ao shopping, ao cabeleireiro, ao massagista ou à manicure, vai precisar ver um bom filme comendo pipoca ou ler um bom livro. Você vai ter que lembrar, em algum momento, que você ainda é você. Será que vai sobrar tempo?

Anos atrás avisei minha mãe que não pretendia ter filhos; ela julgava ser algo passageiro, que eu mudaria de ideia conforme os anos se passassem. Doce ilusão dela – estou perto dos 30, tenho uma sobrinha que amo muito e nada disso despertou meu instinto materno; minha ascensão profissional ainda é o objeto dos meus sonhos e minha vida social ainda é mais importante do que a ideia de uma vida familiar própria. Diz ela que eu não encontrei ainda um homem que me traga a vontade de formar uma família, de gerar seus filhos, e talvez ela tenha mesmo razão, porque na verdade já surgiu alguém que me deixou naquela pequena incerteza se estou tão certa da minha decisão.

Se vou tentar ser tão multifuncional, só o tempo poderá dizer – sei que tão cedo não será, mas sei também que não acho justo colocar filhos no mundo para serem criados por alguém que está sendo pago para isso; não faz o menos sentido. Ao mesmo tempo, sei que não seria justo comigo abrir mão dos meus sonhos de infância em nome de uma família que não foi planejada ou desejada nos últimos quase 30 anos.

Então, o que fazer? Quisera eu ter essa resposta. Conheço o peso da responsabilidade de ser mulher, e o que a sociedade espera de mim (o que deveria ser totalmente irrelevante para qualquer decisão). Seja como for, de uma coisa nenhuma mulher deveria abrir mão, seja a maternal ou a profissional: um amor – um amor verdadeiro e arrebatador. Talvez seja esse o segredo, seja exatamente esse amor o que vai conduzir cada uma de nós a essa resposta. Até porque esse amor não necessariamente é um homem, um futuro marido. E por que não um grande, imenso e inestimável amor… próprio?

Helen Rauen

Relações Públicas, bancária e auto-maquiadora nas horas vagas. Perfeccionista, consumista, chef de sua própria cozinha e com uma pitada de artesanato na veia.

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