Enfim, ela sorriu outra vez…

Por 13 / 09 / 2011

Do lado de sua cama estavam caixas de lencinhos vazios enquanto na velha latinha do Mickey carregava em si o resultado das tantas horas de choro. Em seus ouvidos ainda ecoavam as palavras rudes que ouvira naquele dia e que a fizeram acreditar que não poderia haver um dia de sol novamente em sua vida.

Soluçava. Seu mundo havia desmoronado em minutos quando todos os seus sonhos se desfizeram mais rápido que nuvens sob o vento. Nada mais era totalmente real e sua vontade desaparecer era mais forte do que qualquer força que lhe pudesse ter restado. Não valia mais a pena.

Há tempo seu amor por ele havia arruinado sua sanidade; sentia-se vazia, e ele sabia como pisar nela o bastante para deixá-la constantemente no chão.

Juntos às caixas vazias de lenços, caixas cheias de remédios, tranqüilizantes. Dormir dias seguidos, talvez, pudesse aliviar seu coração, que doía no peito a cada frágil batida. No impulso, abriu a caixa, destacou rapidamente uma quantidade de comprimidos o suficiente para fazê-la não voltar a acordar e, de uma vez, engoliu com um gole de água.

Adormeceu em minutos, não ouviu o telefone tocar, a campainha gritar sem parar ou os murros na porta. Não ouviu a sirene, a correria, as palavras de julgamento de uns e piedade de outros. Não viu o pânico disfarçado de calma para agir, não viu a dor estampada no rosto de quem realmente a amava enquanto sua mente vagava em um mundo encantado onde ele a amava, a amava mais do que tudo e a fazia se sentir bem.

Voltou de súbito, mirando o rosto de sua mãe, que chorava. Sentiu a garganta queimar ao tentar pedir perdão, havia nela a sonda que salvara-lhe a vida, retirando do seu organismo as marcas de seu excesso. Entrava pelo nariz limitando-lhe os movimentos. Era desconfortável, era doloroso, era humilhante, como um castigo cruel que a deixara vulnerável à conclusão alheia.

Enfermeira e outros pacientes lançavam olhares de reprovação. Era uma suicida. Seria para sempre suicida. Sua independência estava comprometida, a confiança de seus amigos e familiares para sempre enfraquecida. Sua mãe viveria em pânico, seu pai sufocaria o medo para fazer de conta que era forte o bastante para tentar segura-la antes de desabar outra vez. E ela sabia que desabaria outra vez.

Ele não voltou pra ela. Seus dias não mudaram, sua rotina não mudou, nada aconteceu nos dias seguintes. Mas por algum motivo inexplicável, ela viu o sol. Um dia desses qualquer, livre dos olhares inquisidores, longe da clara dor de quem a amava, com a mente limpa como poucas vezes em sua existência, sentiu o vento balançar seus cabelos, um calor gostoso afastar o frio de seus medos e soube que tudo iria dar certo. Simplesmente soube.

Ela sorriu outra vez.

MayaFalks

Redatora publicitária, escritora, roteirista, colunista e mulher vaidosa nas horas vagas.
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Helen Rauen

Relações Públicas, bancária e auto-maquiadora nas horas vagas. Perfeccionista, consumista, chef de sua própria cozinha e com uma pitada de artesanato na veia.

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2 Comentários em Enfim, ela sorriu outra vez…
  • juliana Trinci disse:

    Um conto tão bonito e tocante. E infelizmente, reflete alguma parte da vida da maioria de nós, em maior ou menor grau.

  • Monaliza disse:

    Muito bonito , descreve com palavras perfeitas os sentimentos !!!

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