Tomei um pé na bunda. E agora?

Por 25 / 09 / 2011

Depois de um certo tempo amando muito alguém, a gente já não sabe mais onde a gente começa e onde a gente termina, como se fôssemos uma extensão da pessoa amada, e pior, uma extensão sem acesso à oxigênio, como se o pulmão da relação ficasse na outra pessoa e o coração em nós. Quando acaba, sufoca, falta ar e o coração bate dolorido.

Não importa por quanto tempo a relação durou, levar um pé na bunda nunca é uma experiência agradável, nunca deixa de ser um choque, um susto, um corte seco em sonhos, planos e projetos. Você acredite que vive um conto de fadas e de repente se vê sozinha, indefesa em um canto escuro cercada de dragões e sem direito ao príncipe encantado. O príncipe foi embora, e não está exatamente interessado em saber se você sobreviveu ao fogo ou às garras dos dragões. Não há mais o seu tão planejado final feliz.

Você já não sabe mais caminhar pelas próprias pernas; você já não consegue mais executar tarefas simples e patéticas porque em algum momento, algo muito forte lembra ele e você cai em lágrimas que parecem não cessar nunca, como se você chovesse por dentro – uma tempestade devastadora que arrasta tudo de bom que você acreditava ter.

Você perde as forças. Cai de joelhos, já não pode sequer lembrar as coisas que outrora te faziam sorrir. Dói. Sua alma está em pedaços e ele lá, vivendo a vida dele como se você nunca tivesse existido. Você não sabe o que se passa no coração dele, mas sabe que se ele tivesse como você, voltaria. Ninguém suportaria tamanha dor à toa.

O celular na mão, o número deletado do aparelho, mas não da sua memória. O que fazer? E as viagens programadas? E o cinema da semana que vem? E o jantar a dois do seu aniversário? E aquela garrafa de moscatel guardada no armário esperando por ele que não vai voltar? Tudo fica em aberto, tudo pendente, tudo suspenso no escuro.

A dor que não passa, o seu sorriso sem graça enquanto seus amigos movem montanhas pra te fazer feliz e, a cada tentativa, parece que seu coração se aperta mais. Não é a mesma coisa, nunca é a mesma coisa. O problema é que a vida segue, a vida de todos, inclusive a dele. Você ainda tem que acordar todas as manhãs, você ainda tem que dar o melhor de si porque a imobiliária, a companhia de energia e a TV a cabo não ligam pra sua dor. Nem ele.

Você não tem muitas saídas, tenta se enganar, fingir que tudo vai voltar a ser como antes porque é menos doloroso que ser obrigada a enxergar que acabou. Todas aquelas coisas lindas que ele te disse não eram exatamente reais; seus dias de princesa chegaram ao fim. Complicado? Ninguém disse que viver é fácil, e amar é ainda mais desafiador.

Bola pra frente, hora de encarar a vida. Daí você percebe que o hábito é mais difícil de perder do que todo aquele seu amor desesperado. Você ainda o ama, não tem a menor dúvida disso, mas sem os hábitos que você criou com ele, sem todas as coisas que lembram ele, talvez com o tempo esse amor fosse cedendo aos poucos, até virar memória.

Não, amiga, nada mais será igual, sua história ficará para sempre marcada com isso que aconteceu. Ele pode até voltar para você, nunca se sabe, mas se tem algo que tem que ficar de lição que a pessoa que realmente te ama jamais vai te deixar: você mesma.

Faça desse amor sua história de conto de fadas, torne recíproco. Hábitos se criam novos, amores perdidos não eram amores, momentos lindos não precisam deixar de ser lindos porque acabaram. Vai doer, sempre dói, mas um dia passa. Um dia passa.

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Contato: maya.soudiva@gmail.com

Helen Rauen

Relações Públicas, bancária e auto-maquiadora nas horas vagas. Perfeccionista, consumista, chef de sua própria cozinha e com uma pitada de artesanato na veia.

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