Trabalho não, Entretenimento!

Por 23 / 12 / 2011

Trabalho é chato! Trabalho é um mal necessário. Trabalho é sempre bom. Trabalho enobrece a alma. Trabalho, trabalho, trabalho. Depois que começamos a trabalhar e a assumir responsabilidades, muitas vezes pedimos arrego às memórias da infância, cujas breves recordações trazem os deliciosos momentos de diversão e de inocência, quando o trabalho dos adultos parecia algo até que divertido a ponto de virar mais uma brincadeira: imitar a seriedade e as tarefas da profissão que parecia tão interessante.

Quantas de nós nunca brincamos de professoras? Mamães? Donas de casas? E quantas de nós realmente não se tornaram professoras e perceberam a longa e discrepante distância entre a profissão verdadeira e a de brincadeira? Quantas de nós não desistiram de uma profissão por não ser nada daquilo que esperava? Pois é, a brincadeira virou realidade, mas nem por isso passou a ser divertida, não é mesmo?

E não é que o trabalho passou realmente a ser uma tarefa e até uma palavra chata? Só que não poderia ser diferente em uma sociedade que sofreu com trabalhos escravos há pouco menos de um século e continua sofrendo com a desvalorização e os baixos salários com que os trabalhadores lidam diária e mensalmente. Já reparou que no Brasil o incentivo e a valorização dos funcionários é ainda um tabu quase intransponível? Que a luta pela melhoria de salários e condições de trabalho é praticamente ignorada e abafada?

O povo brasileiro leva no sobrenome o ID trabalho. Você nunca se questionou por que os nascidos no Brasil não são chamados de brasilienses ou brasilianos? Não? Bom, quem nasce na terra do carnaval, que por um momento parece o paraíso da diversão e da liberdade/libertinagem, é identificado pelo adjetivo pátrio brasileiro que nada mais é do que a junção do nome do país de origem + o sufixo –eiro, que se refere à ocupação, ao ofício, à profissão do substantivo. Existem os padeiros, os marketeiros, os jardineiros, que desempenham a função de quem trabalha com pães, com marketing e com jardim; e existem os brasileiros, que são quem trabalha para o Brasil.

A ideia da palavra trabalho e os seus desdobramentos linguísticos e comportamentais vão além disso, é claro! Há pessoas que realmente consideram o trabalho como um mal necessário e que trabalha apenas pensando em pagar as contas, garantir o sustento da família, sobreviver em uma sociedade que idolatra o capitalismo selvagem. Mas há também as pessoas que agregam à ideia/palavra trabalho o valor de prazer, de felicidade. Acredito que esses últimos sejam, talvez, a minoria, já que muitos trabalhadores vivem realidades totalmente subumanas e infelizes em relação à sua profissão.

E na realidade, a ideia deste post veio quando assisti à entrevista com o Ratinho no programa Agora é tarde, apresentado pelo humorista Danilo Gentili. Durante a conversa, o polêmico apresentador do SBT afirmou sem nenhuma cerimônia ou hipocrisia que jamais havia trabalhado, porque trabalho é quando você faz algo de que não gosta, por obrigação. Não foram exatamente essas as palavras usadas por Ratinho, mas quando o seu enunciado reverberou nos meus ouvidos, concordei de imediato!

É claro, não há definições de Aurélio ou Houaiss que expressem um significado e um valor tão real e até exato a essa palavra. Cresci em um ambiente familiar no qual sempre ouvi essa conotação negativa de trabalho. Pais frustrados, que não buscaram seus ideais, seus sonhos na profissão, optaram por criar uma linda e extensa família, sacrificando o sonho de ser jornalista e de ser arquiteta. O ser bancário e o ser dona-de-casa caíram melhor à realidade de criar filhos na capital brasileira do trabalho. E o que foi transmitido aos rebentos criados nesse clima de obrigatoriedade e deveres? Que trabalho não é o que gostamos de fazer, mas sim o que devemos fazer, como um sacrifício mesmo.

Nessa mesma conversa durante o programa da Band, o jornalista Ratinho ainda acrescentou que sempre está inovando, “inventando moda”. Tentando talvez esmiuçar melhor as falas do apresentador do SBT, acredito que sua maior intenção tenha sido justamente mostrar a diferença entre trabalhar – que pressupõe realizar tarefas das quais não gostamos – e se entreter – cuja ideia é a de expandir suas ações e seus desejos do dia-a-dia para a sua profissão, de curtir aquilo que faz por se tratar de algo do qual realmente gosta.

Quem se entrega ao trabalho, e não ao entretenimento, acaba por se amargurar de uma vida não aproveitada, de não ter seguido seus sonhos e suas vontades. Dedicar-se a esse entretenimento a que me refiro significa basicamente: ter autonomia para fazer aquilo que lhe dá prazer, não ter medo de arriscar e inovar, procurar aquilo que te satisfaz e deixa feliz e, não menos importante, não deixar que os outros ditem o que você deve fazer e de que forma deve fazer.

Em vez de trabalhar, apenas se entretenha!

Helen Rauen

Relações Públicas, bancária e auto-maquiadora nas horas vagas. Perfeccionista, consumista, chef de sua própria cozinha e com uma pitada de artesanato na veia.

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